Cora Coralina: "Alma de açúcar, mãos com poesia"


Alma de açúcar, mãos com poesia. Este trecho do “Poema com Açúcar” traduz a sensibilidade da doceira poetisa Cora Coralina que compreendeu, e compartilhou, as angústias e alegrias da mulher de qualquer tempo. Com sabedoria, essa senhora virtuosa escreveu sem rodeios e sem pestanejar palavras inteiras ao invés de meias-palavras, verdades completas no lugar de meia-verdade. Cora, de Corajosa, versou sobre a essência da alma feminina, “renovadora e reveladora do mundo”, como escreve em Mãe”. Também deu voz aos marginalizados, aos humildes, falou sobre família, relacionamentos, educação, filhos, sonhos e amor.

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Toda conversa escrita por Cora foi muito bem apurada em seu tacho de doces sob o calor do fogo. Enquanto mexia com colher de pau os pedaços de frutas que seriam transformados em guloseimas, remexia a memória, projetava para frente e para trás, intercalando com o hoje até chegar ao ponto certo, assim como seus  doces.  No próximo dia 20 de agosto, data que foi simbolicamente escolhida como o Dia da Cozinheira em homenagem à poeta, Cora completaria 121 anos. Sua fala amplificada por experiências individuais ressoa no coletivo e cria identificação com qualquer pessoa que aprecie enxergar o mundo pela lente da simplicidade sábia.

Escolhemos entrar pela cozinha para degustar um pouco desse universo açucarado que não perde a firmeza nem se desmancha. Cora considerava a arte culinária a mais nobre das artes, ligada à vida e saúde. Esse breve receituário de poemas, sugere aguçar o apetite e o coração, além de servir de inspiração para refletir sobre a vida, assim como os doces suscitam suspiros de prazer e alegria. Selecionamos trechos do livro “Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais” para saborear sua relação com a comida e com o mundo.

Em “Todas as Vidas”, Cora descreve as múltiplas mulheres que convivem dentro dela, como a mulher cozinheira/ Pimenta e cebola/Quitute bem feito/Panela de barro/Taipa de lenha/Cozinha antiga. Em “Eu Voltarei”, imagina que gostaria de ter padarias: Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros/Terão moinhos e serrarias e panificadoras./ Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens e mulheres,/ ligados profundamente ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

Ao milho, ela dedica dois poemas: “Oração do Milho” e “Poema do Milho”, onde a doceira faz um ode ao cereal: Jesus e São João andaram de noite na lavoura/ e botaram a bênção no milho. E na prece ela se coloca no lugar do próprio alimento, renegado e rejeitado, para dar-lhe redenção: Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito/Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante/ Sou a farinha econômica do proletariado/ Sou a polenta do imigrante/ Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor, que me fizestes necessário e humilde.

Em “Outros Versos”, a singela história de “O Prato azul-pombinho”: Prato de bombocado e de mães-bentas/ De fios  de ovos/De receita dobrada/ de grandes pudins,/recendendo a cravo,/nadando em calda. Ainda em “Antiguidades”, Cora descreve  o bolo de infância e a cerimônia em torno da partilha, disputada por crianças, adultos e velhos: Me dava uma fatia, tão fina, tão delgada… (…)/ E o bolo inteiro, quase intangível, se guardava bem guardado (…) / Num armário alto, fechado, impossível.

Registrada como Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs, nasceu na Casa Velha da Ponte, às margens do Rio Vermelho, que hoje é o Museu Casa de Cora Coralina, na cidade de Goiás. Sua origem e seu apego à terra-natal pontua contos e crônicas da poetisa admirada por Carlos Drummond de Andrade e Monteiro Lobato. O primeiro livro foi publicado aos 76 anos, depois de ter sido reverenciada por importantes escritores de sua época. Ao todo, lançou seis títulos, sendo três infantis ( “As cocadas”, “A moeda de ouro que o pato engoliu” e “Meninos verdes”). Apesar da ligação com Goiás, viveu 40 anos em São Paulo com o advogado Cantídio Tolentino Bretãs. Em Penápolis ,interior do estado  paulista produziu e vendeu linguiça caseira e banha de porco.

Em 2009, a editora Global lançou o livro “Cora Coralina: doceira e poeta”, em comemoração aos 120 anos de seu nascimento. Além dos versos, o livro traz os doces feitos por ela, garimpados em cadernos amarelados pelo tempo. A viagem culinária pelo mundo de Cora encerra com a receita de Doce de Mamão Vermelho para materializar a experiência “renovadora e  reveladora” dos versos dessa mulher comum. Na metade da vida, assumiu ter “perdido o medo”, transformando o cotidiano em extraordinário, e a cozinha em inspiração para dizer  o que sente e o que pensa em doces palavras e poesias comestíveis.  Com versos confeitados de açúcar, Cora  encontra em outros estranhos, tão comuns como ela, a paridade de suas singularidades.

Doce de mamão vermelho

Ingredientes

1 mamão de 2 quilos

1 colher (sopa) de bicarbonato ou cal virgem

1 quilo de açúcar cristal

Modo de preparo

Mamão de qualquer tamanho, vermelho, quase maduro, super firme. Antes de colocar os pedaços de mamão na calda, faça furos com o garfo para que a calda penetre durante o cozimento. O tempo de cozimento é de 3 a 4 horas. Descasque o mamão, retire as sementes e corte em pedaços. Coloque os pedaços em água com bicarbonato ou cal vrigem de construção, uma colher de sopa para cada mamão médio. Depois de uma hora lave pedaços em água pura. Prepare, à parte, calda em ponto de espelho, quantidade suficiente para cobrir os pedaços. Quando ela estiver no ponto, coloque os pedaços de mamão e em fogo lento espere até que fiquem macios. Deixe dormir na calda, apurando-os no dia seguinte. Com o auxílio de uma colher de pau ou escumadeira, coloque para escorrer em peneira de taquara. Enquanto isso, apure bem a calda restante, até que comece a açucarar. Depois de escorridos, passe os pedaços de mamão na calda apurada para que fiquem glacerizados. Acabe de secá-los ao sol.

Nota: O bicarbonato ou o cal servem para deixar os frutos durinhos por fora e macios por dentro.

Dica: Se quiser uma apresentação mais simples, você pode levar a calda ao fogo, deixando apurar em ponto de calda firme, enquanto os pedaços já cozidos escorrem. Acrescente o mamão, deixe ferver por mais ou menos 10 minutos, coloque em uma compoteira e sirva frio.

Equipe Malagueta

Texto: Juliana Dias

Fotos e edição de imagens: Carolina Amorim

Revisão: Mariana Moraes

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3 Comments

14 de agosto de 2010 9:48

Elizabeth Dias

Bela matéria homenageando a grande Cora Coralina.

15 de agosto de 2010 10:19

margarida Nogueira

Que lindo texto, Juliana!

Ninguem melhor que a Cora para representar as cozinheiras!

Margarida

30 de agosto de 2010 21:18

kettilyn

adorei!

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