Cora – coração do Brasil


Em 1902, Cora Coralina esteve no Rio de Janeiro e registrou a viagem em um de seus cadernos. Seu relato sobre a cidade captou a essência boêmia com seus cafés e confeitarias, habitados por personagens distintos.

Cora na panela de doce

Também foi no Rio que a escritora deixou um exemplar de um de seus livros com dedicatória para Carlos Drummond de Andrade. A obra chegou  ao seu destino e, em 1980, o poeta publicou uma crônica no Jornal do Brasil anunciando, entusiasmado, a descoberta da senhora de Goiás. Este texto foi oficialmente seu reconhecimento nacional.

Até o dia 13 de março, os cariocas poderão conhecer o universo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto, a poetisa, intelectual, doceira,  comerciante e empreendedora. A exposição “Cora Coralina – coração do Brasil” ocupa todo o segundo andar do Centro Cultural do Brasil com correspondências, manuscritos, artigos, fotografias, documentário e os mais diversos documentos. Alguns jamais saíram da Casa de Cora Coralina, memorial instalado na casa onde viveu na cidade de Goiás.

A filha caçula, Dona Vicência Brêtas, de 81 anos, esteve no Rio por ocasião da exposição. Em entrevista ao Informativo Malagueta recordou lembranças de Cora Coragem, como gosta de se referir à mãe. É ela quem detém os direitos da autora e já lançou  dois livros: “Cora: poeta e doceira” e o romance “Cora Coragem, Cora Poesia”.  A elegante senhora, bem maquiada e com cabelo impecável, diz que está sempre arrumada para espantar a velhice.  É alta e anda com a cabeça erguida.”Tenho a idade que me derem”, dispara.

Gosta de  conviver com gente jovem para se sentir mais nova. A fisionomia e o jeito de falar, sem meias-palavras, guarda semelhança com a da mãe. Não disfarça o contentamento em aprender coisas novas. Fica falante e sorridente igual a uma criança, repetindo com atenção para não esquecer o aprendizado. É observadora e faz perguntas também. Quer saber, por exemplo, o que uma Rolleiflex faz nas mãos de uma menina tão bonita, durante a sessão de fotos para esta matéria. “Conceito e glamour. Aprendi duas coisas hoje.Quando me perguntarem já vou saber responder. Como é bom aprender”, disse satisfeita.

Dona Vicência Brêtas

O pai faleceu quando ela tinha dois anos de idade. É a caçula de quatro filhos, sendo que tem 15 anos de diferença da terceira irmã. Depois que o marido faleceu, a mãe voltou de São Paulo, onde nasceram os filhos, para a cidade de Jaboticabal, no interior do Estado, e abriu uma pensão alimentar para estudantes.  A cidade de Andradina foi outro lugar por onde passou Cora. Lá, tinha um sítio com criação de porcos.  Cora, conta Dona Vicência, não fazia doces para vender, apenas os de casa eram os privilegiados com o seu dom.

A incansável trabalhadora, como se autodefinia, vendeu livros da Editora José Olympio de porta em porta na capital paulista. Foi o próprio Olympio quem editou seu primeiro livro. A ousada senhora ainda liderou diversas causas, participou como voluntária na Revolução Constitucionalista de 32 e batalhou pelo voto feminino. “Mamãe era muito adiantada para a época dela”, diz a filha, acrescentando que a família não a apoiava. Foi aos 67 anos, quando os filhos estavam criados e encaminhados, que ela  retornou à cidade de Goiás para comprar a casa da família. Daí, recomeçou uma nova história.

Os doces, que antes eram para deleite da família, virou fonte de renda. Cora resgatou a tradição doceira de sua casa e fez fama em Goiânia. Embalados em caixas, mandadas fazer numa gráfica, ela preparava com esmero doces de frutas feitos de figo, mamão vermelho, laranja da terra e abóbora. Na região, diz Vicência, não havia o hábito de vender doces. A mãe iniciou esse costume na sua cidade-natal.

Os seus eram diferentes, esclarece com detalhes a filha. “Eram glacerados ao invés de cristalizados. O glacerado é mais trabalhoso para chegar no ponto. Depois de o doce feito, ela punha para escorrer. A calda continuava apurando com um pouco mais de açúcar até virar glacê. Ficava aquela casquinha fininha e branquinha por fora e aquela fruta macia por dentro”, descreve saudosamente. Os doces não eram mexidos com colher. Os tachos é que eram erguidos e balançados. Era preciso uma boa medida de bravura, antes de se chegar à doçura. Depois que Cora quebrou o fêmur, não pôde mais exercer mais a atividade.

Os quatro filhos,  lembra Vicência, eram bons na cozinha.  A caçula, por exemplo, já fez muitos doces como os da mãe. Agora, como mora sozinha, conta que não vale a pena fazer.  Cora é um exemplo de mulher inquieta e virtuosa. Em apenas 14 anos dos 96 anos de sua vida, essa senhora com “alma de açúcar e mãos de poesia”, tornou a sua cidade reconhecida pela coragem com que manipulou palavras e tachos de cobre. Com apenas o segundo ano primário, era uma leitora voraz e dona de uma memória invejável.

Os doces fizeram a fama de Goiás. Os turistas logo descobriram o tesouro da cidade antiga. Estava naquela casa velha da ponte do Rio Vermelho. A doceira recebeu carta até do Vaticano, elogiando suas iguarias. Foram levados pelo Arcebispo de Goiás ao Papa Pio XII. O amigo Jorge Amado também enalteceu por escrito a arte da doceira, declarando que “a culinária é a mais nobre de todas as Artes”. Os dois documentos integram o acervo do Museu Casa de Cora Coralina. Com o produto da venda de seus doces, ela conseguiu, ao longo de alguns anos, comprar as partes dos irmãos e tornar-se a única dona da Casa Velha da Ponte, onde funciona hoje o museu que leva seu nome.

Vicência lembra com saudade da carne de porco que a mãe preparava em Goiás. “Ela comprava pedaços grandes da carne, temperava bem e punha no fumeiro em cima do fogão à lenha. Ficava naquele calorzinho, pingando gordura. Lá, a comida era feita em panela de barro. Mas a comida da minha mãe era boa em qualquer panela”, comenta. Dos doces, a caçula também tem saudade. Ela se orgulha de ser a guardiã do tesouro de Cora, parte do acervo cedido para a exposição, que tem curadoria de Júlia Peregrino.  Com 11 livros editados, há ainda muito a ser descoberto sobre essa mulher virtuosa, avisa  Dona Vicência. Seu poema preferido é a “Oração do Milho” porque a descrição é precisa. “Dá para ver o milharal crescendo. É assim mesmo”, concorda. Sobre a poesia de Cora afirma que não há nada abstrato. “É tudo concreto: o homem da roça, o boi, o menino pobre, o lavrador, o prisioneiro e a mulher da vida. É que você está enxergando todo o dia”, define . Talvez por ser tão cotidiana e real em suas palavras, a cozinha era uma outra maneira de apreender, interagir e internalizar sua obra.

Cora Coralina – Coração do Brasil.

Centro Cultural do Banco do Brasil

Rua Primeiro de Março, 66  - Rio de Janeiro

Tel: (21) 3808.2020

http://twitter.com/CCBB_RJ

Inauguração: 10 de janeiro de 2011 (para convidados)

Período: 11/01 a 13/03/2011

Horário: de 3ª a domingo, das 9h às 21h

Entrada franca

Equipe Malagueta

Texto: Juliana Dias

Fotos: Carolina Amorim

Revisão: Vanessa Souza Moraes

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2 Comments

31 de janeiro de 2011 2:40

nina horta

Muito boa a matéria de Cora Coralina!

1 de fevereiro de 2011 0:45

editor

Obrigada, Nina! Que honra receber seu comentário aqui no site! Seja bem-vinda.

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